Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo...
sábado, 24 de julho de 2010
quarta-feira, 21 de julho de 2010
A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.
Bernardo Soares, Do livro do Desassossego.
ps: Tô mais insana ainda, mamãe não devia me permitir essas leituras.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
domingo, 18 de julho de 2010
Domingos Matam Mais Homens que Bombas

devido às condições do fim de semana, e embora haja
poluição demais, tudo está engarrafado
e é pior que mastros quebrados na tempestade
você não vai a lugar algum
e se for, estão todos olhando pelas vidraças
ou esperando pelo jantar, e não importa o quanto esteja ruim
(não a vidraça, o jantar)
eles vão passar mais tempo falando nisso
do que comendo,
e é por isso que minha mulher se livrou de mim:
eu era um tosco e não sabia quando sorrir
ou ainda (pior) eu sabia,
mas não o fazia, e numa tarde
com gente pulando em piscinas
e jogando cartas
e assistindo comediantes de TV cuidadosamente barbeados
em camisas brancas engomadas e finas gravatas
brincando sobre aquilo que o mundo havia feito com eles,
eu fingi uma dor de cabeça
e eles me deram o quarto da mocinha
(ela tinha uns 17)
e , droga, eu me arrastei sob seus lençóis
e fingi que dormia
mas todo sabiam que eu era um farsante encurralado,
mas eu tentei todos os truques –
tentei pensar em Wilde atrás das grades,
mas Wilde estava morto;
tentei pensar em Hemingway atirando num leão
ou andando pelas ruas de Paris
orgulhoso com seus parceiros malucos,
as putas enlanguescendo-se até seus belos joelhos
mas tudo que fiz foi girar entre seus jovens lençóis,
e da cabeceira, balançando em minha tempestade nervosa,
vários bibelôs caíram em mim –
elefantes, cachorros de vidro com olhares sedutores
um menino e uma menina carregando um balde d’água,
mas nada de Bach ou conduzido por Ormandy,
e eu finalmente desisti, fui até a privada
e tentei mijar (eu sabia que ia ficar constipado
por uma semana), então eu saí
e minha mulher, uma leitora de Platão e de e.e. cummings
subiu e disse “ooooh, você devia ter visto
BooBoo na piscina! Ele deu cambalhotas e piruetas
e foi a coisa mais engraçada que você
JAMAIS viu!”
acho que não foi muito depois que o homem veio
ao nosso apartamento no terceiro andar
pelas sete da manhã
e me entregou uma notificação de divórcio,
e eu voltei pra cama com ela e disse,
não se preocupe, está tudo bem, e
ela começou a chorar chorar chorar,
me desculpe, me desculpe, me desculpe,
e eu disse, por favor pare,
lembre do seu coração.
mas naquela manhã quando ela saiu
pelas 8 da manhã ela parecia
a mesma de sempre, talvez até melhor.
nem pensei em me barbear
liguei dizendo que estava doente e desci
até o bar da esquina.
C.Bukowski
Merecidamente.
L.T
